Segunda-feira

Tijolo

(ou Os Livros e o Excesso de Páginas)

Sodine Üe

A primeira situação constrangedora que me (nos) vem à mente é o caso de Buddenbrooks, livro de Thomas Mann que quase foi “podado” pela editora, mas que, por insistência do autor, terminou saindo do modo como estava: 708 páginas, na versão que possuo.

E a primeira observação pertinente com relação ao romance do Mann é que ele trata da saga de uma família (a do próprio Mann), ou seja, tornou-se natural que as sagas familiares/históricas fossem volumosas, uma vez que observar a ascensão ou a queda de uma geração inteira (ou de boa parte dela) demandaria muito tempo. Inclui-se nessa lógica a série Em Busca do Tempo Perdido, de Proust, que se, por um lado, não é tão volumosa em suas 7 partes separadas, por outro, é praticamente ilegível de um só fôlego no seu conjunto.

Estamos então na iminência de admitir o que o tempo literário combina com o tempo humano. Se o meu dia tem 24 horas e posso relatá-lo em, digamos, 2 ou 3 páginas (minha vida é muito “pobre em experiências comunicáveis”, plagiando Walter Benjamin), logo, se eu vivo uns 90 anos, isso me tomaria 1095 páginas para narrar minha vida durante apenas 1 ano. Isso sem contar com as famosas digressões, que ocupam pelo menos uns 5 parágrafos de cada página.

É evidente que não concordamos com a teoria do Tempo Literário como tempo humano, e qualquer estudioso de teoria literária pode falar disso melhor do que eu. Na verdade, nem é preciso analisar a teoria literária, basta observar os fatos: pode-se dizer que a equação Saga Familiar/Histórica = Livro Tijolo funciona razoavelmente até 1922, quando James Joyce lança seu Ulisses: 738 páginas de um livro que se passa num só dia (mais especificamente em 18 horas de um dia). O que causa estranheza, porém, é que a principal crítica feita ao texto não se referia ao seu volume, como no caso do livro do Mann, mas ao teor, digamos, impróprio de certos trechos.

Mas, afinal, não parecia certo que deixar de ler um livro pela sua excessiva quantidade de páginas era um fenômeno da “pressa” moderna, com sua internet, seu sms de 50 caracteres, seus comercias televisivos de no máximo 30 segundos, seus malditos twits de até 140 tecladas? Como se explica então que Thomas Mann, em 1901 (notem: antes das duas grandes guerras), já fosse advertido sobre sua “pena nervosa”?

Pode-se dizer que rejeitar um livro pelo excesso de páginas representa uma consequência de nossa educação literária ocidental?

Somos filhos da Grécia, afinal. E nossa herança (grega), por incrível que pareça, é de textos breves: casos como o da Ilíada (698 pp.) e o da Odisseia (557 pp.), de Homero, são exceções, os textos gregos — especialmente as tragédias — são curtos. Em menos de meia hora é possível ler Electra, de Sófocles, que, na versão que eu possuo, tem apenas 28 páginas; ou, se o leitor dispuser de umas duas horas, poderá ler a Electra na versão de Eurípedes: 93 páginas. O mesmo princípio serve para a leitura de Platão, o grande mestre: desde o Mito da Caverna ao Fédon, passando pelo Sofista e pelo Político, a leitura de cada um não excederá mais que 50 páginas.

O caso de Platão merece inclusive um parêntesis. Vejamos o que Kenneth J. Dover diz a seu respeito: “Pouco depois de 400 a. C., Platão desenvolveu uma das mais notáveis e proveitosas idéias na história da literatura. Deu à Filosofia uma forma dramática e representou dois ou mais personagens argumentando, por vezes de pontos-de-vista¹ irreconciliáveis², por vezes em cooperação”. Contrapondo essa informação à de Jaa Torranno (ainda sobre Platão): “(...) quando se fala de concepção de verdade, em termos míticos, fala-se também de concepção de conhecimento e de ser”, depreende-se certa urgência em encontrar uma alternativa ao valor tão louvado da quantidade; se narrar uma saga familiar/histórica — com sua finitude — demanda centenas de páginas, já observado o tempo, seja ele literário ou humano, o que dizer da dialética platônica que pretendia encontrar a Verdade por intermédio do Ser, que é, até onde se sabe, infinito?

Mais uma vez a lógica nos contraria: os diálogos de Platão são não só finitos, como também mais breves que as sagas. Diante disso surge a crítica imediata afirmando que a brevidade platônica é a riqueza de seu estilo. Mas, se for assim, dir-se-ia que era então justamente a vagarosidade volumosa de Thomas Mann que lhe possibilitava a perfeição, e se evocaria, para reforçar tal argumento, o seu Dr. Fausto (523 pp.) e sua Montanha Mágica (473 pp.). Por outro lado, teríamos de concluir que a sua Morte em Veneza (83 pp.), seu Tônio Kroeger (81 pp.) e seu Mário e o Mágico (185 pp.) são, portanto, textos inferiores...

Melhor e mais sensato seria admitir que um autor não é necessariamente bom ou ruim em muitas ou em poucas páginas, e que sua qualidade independe do volume. Mas admitir tal coisa não melhora nem piora nossa situação: continuamos sem desvendar o mistério.

Que tal outro parêntesis só para complicar um pouco mais? Ao falar em “qualidade independente do volume”, vem à minha mente outra questão: e quando o volume referido não é o de páginas, mas o de livros? Eu mesmo já traduzi trechos de um texto do poeta argentino Antonio Porchia. Em 83 anos de vida, ele teve a audácia de lançar apenas 1 livro, Vozes, em 1943. E é por intermédio deste único trabalho que Jorge Luis Borges o compara a La Rochefoucauld, não apenas no formato de sua obra, mas em sua qualidade/habilidade, e diz no mesmo ensaio que Vozes o tornou “amigo de Porchia, mesmo que ele não saiba”. Então é possível a glória literária sem volume de nenhuma espécie?

Então o que realmente importa é o conteúdo? Teremos que nos render a esse postulado burguês e maniqueísta? Mas e quando aquilo que se considera Bom ou Ruim oscila de acordo com a quantidade de páginas, e não com o que se lê?

A motivação para escrever este texto nasceu enquanto eu lia ¡Despidan a Esos Desgraciados!, de Jack Green. O autor é americano, mas a versão a que tive acesso está em espanhol (não sei se já chegou ao Brasil). Para Green, a motivação para escrever seu ensaio de título tão sugestivo nasceu com a leitura das críticas feitas ao livro de outro americano, William Gladdis, que, ao lançar seu primeiro trabalho chamado The Recognitions (Os Reconhecimentos) em 1955, “recebeu 55 resenhas em diversos meios impressos”, das quais, segundo opinião de Green, apenas “duas foram acertadas (elogiosas)”. Daí a origem do título do ensaio: os desgraçados que Green quer ver demitidos são os críticos que falaram mal do livro de Gladdis. O fato não seria tão interessante se não fosse a combinação de dois fatores: The Recognitions tinha 956 páginas e “dois críticos (que falaram mal do livro) admitiram que não o haviam lido até o final”. Green ataca inicialmente o que parece óbvio: os críticos não gostam de ler os tijolos? Será que quando se depararam com as “mais de 400.000 palavras” de The Recognitions, os “filisteus aterrorizados” da Time e do Saturday Review fizeram o que nós fazemos: calcularam o peso (literalmente) da obra e recuaram?

Para a vergonha dos críticos, o resultado de todo o massacre a que submeteram o livro de Gladdis veio com o tempo: The Recognitions foi considerado em 1998 pela Modern Library “uma das cem melhores novelas em inglês do século XX” e a própria Time, em 2005, elencou o livro na lista dos “cem melhores romances escritos em inglês desde 1923”.

Aqui a pergunta retorna: é possível classificar livros como Bons ou Ruins de acordo com a quantidade de páginas, e não com o conteúdo? Esta seria, de alguma maneira, uma “via crítica” — uma “via crítica séria”? Pergunto isso porque me sinto sempre devedor do inverso das ideias: sempre que alguém diz que não vai ler um livro devido ao excesso de páginas, a primeira reação dos eruditos é criticar essa atitude — criticar essa atitude é, aparentemente, uma opinião acertada e inquestionável. Mas o panorama muda quando se analisa o assunto do ponto de vista editorial: recusar a publicação de um livro com mais de 700 páginas por questões econômicas (o preço de capa, o preço do papel, o custo da gráfica, o custo do transporte de um livro que pesa quase 1 quilo, o espaço que um livro com essas dimensões ocuparia no estoque ou nas prateleiras das livrarias etc.) é, Sim, uma crítica aceitável.

O livro de Gladdis me chamou a atenção para meu próprio hábito de leitura e para uma característica da minha biblioteca. Devo confessar? Por que não? De cada dez livros meus, não mais que 3 têm mais de 500 páginas. É claro que, devido ao meu rigor e ao meu temperamento insuportável, a qualidade do que leio é irrepreensível: Memórias de Adriano (271 pp.), A Metamorfose (34 pp.), A Paixão Segundo G. H. (132 pp.), A Náusea (259 pp.), AIDS e Suas Metáforas (111 pp.), Esboço Para uma Teoria das Emoções (94 pp.), Réplica das Urtigas (79 pp.), A Ordem do Discurso (79 pp.), Breve Romance de Sonho (95 pp.), A Genealogia da Moral (172 pp.), Ecce Homo (123 pp.), O Amante (95 pp.), Maneiras Trágicas de Matar uma Mulher (115 pp.), Heichmann no Julgamento (182 pp.) etc. e etc. Mas, ainda assim, pode-se dizer que minha biblioteca é CULTA, apesar dos livros com mais de 500 páginas serem apenas exceções?

Outra reflexão me perturba neste momento... Estamos novamente na mesma encruzilhada? A quantidade acaba vencendo sempre? Pensem comigo: como se forma um erudito? Lendo livros de qualidade. Mas lendo quantos livros de qualidade? O máximo que ele puder... Ou seja, troca-se a quantidade de páginas de um livro pela quantidade de livros no conjunto... Isso significa que não é uma boa opção perder dias lendo As Metamorfosis de Ovídio (392 pp.), quando bem se poderia dividir esse tijolo por 8 (392 pp. : 8 = 49 pp.) e ler, neste meio tempo, todas as tragédias mais importantes de Ésquilo, Sófocles ou Eurípedes — Valem mais 100 pássaros pequenos na mão que 1 pássaro grande voando?

Eis uma pergunta que o livro de Gladdis não responde — Mas será que as editoras não estão nos oferecendo a resposta a todo o momento? (Para um ótimo entendedor, uma pergunta cínica sempre basta...).

De qualquer maneira, só por precaução e só para esclarecer: juro que, se der tempo, ainda esta semana paro para ler as 394 páginas de Ana Karenina... Isso, é claro, somente depois de ler as brevíssimas 67 páginas dO Sublime de Longino...

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1 – A tradução que possuo é bastante deficiente. A palavra correta é “ponto de vista”.

2 – Aqui a péssima qualidade da tradução é um pouco mais grave. A palavra correta é, provavelmente, “inconciliáveis”.